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Após venda de distribuidoras, Eletrobras quer voltar a leilões

Por Rodrigo Polito e Camila Maia | Do Rio e São Paulo

A Eletrobras pretende voltar a participar de leilões de contratação de energia nova e de linhas de transmissão, caso a privatização de suas seis distribuidoras seja bem-sucedida. Segundo o presidente da estatal, Wilson Ferreira Júnior, sem as distribuidores, previstas para ir a leilão em 26 de julho, a companhia poderá focar nas atividades-fim, de geração e transmissão.
"A Eletrobras poderá focar nas atividades de geração e transmissão, definidas no plano estratégico, permitindo concluir usinas e linhas de transmissão e retomar perspectivas de novos investimentos nessas áreas nos próximos leilões", disse o executivo ao Valor.
Na quarta-feira, a Câmara aprovou o texto-base do projeto de lei que viabiliza financeiramente as distribuidoras da Eletrobras para a venda. Após a votação dos destaques, prevista para a próxima semana, o texto será encaminhado ao Senado, para nova votação.
Com relação à votação na Câmara, Ferreira Júnior disse que foi uma demonstração de "grande sensibilidade" dos deputados ao tema, que "poderá viabilizar, através da privatização, os investimentos necessários para aumentar a qualidade do serviço, a manutenção de empregos com aumento de eficiência, e a redução de perdas [nas distribuidoras]".
Para Gustavo de Marchi, consultor da FGV Energia e advogado especializado no setor elétrico, a aprovação do projeto de lei permitirá a correção de distorções históricas nos sistemas isolados e reduzirá as incertezas sobre o leilão das distribuidoras. "O projeto permitirá neutralidade e previsibilidade para o novo concessionário", disse.
Os sindicatos de trabalhadores nas empresas elétricas, contrários à privatização, buscarão agora sensibilizar os senadores para rejeitarem o projeto e, ao mesmo tempo, vão analisar alternativas jurídicas para tentar barrar o leilão das distribuidoras.
"Vamos continuar fazendo nossas caminhadas no Senado", disse Emanuel Torres, diretor do Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Energia Elétrica e Região do Rio de Janeiro (Sintergia-RJ). Segundo ele, a ideia é fazer reuniões com os senadores dos seis Estados onde atuam as distribuidoras da Eletrobras (Alagoas, Piauí, Amazonas, Rondônia, Roraima e Acre).
"Vamos continuar trabalhando na esfera jurídica", afirmou Torres. A ideia é buscar meios jurídicos para inviabilizar a realização do leilão. Os sindicatos já conseguiram uma primeira vitória, ao obter liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski, que suspendeu a privatização da Ceal, distribuidora do Alagoas.
O mercado ainda vê com ceticismo a privatização das distribuidoras. Em nota enviada a clientes, o Itaú BBA lembrou que a Câmara ainda precisa votar os destaques e enviar o projeto ao Senado, para que seja votado antes do início do recesso, em 17 de julho.
"Ainda assim, mesmo se o projeto avançar, acreditamos que as distribuidoras da Eletrobras podem ter demanda fraca no leilão, devido à avaliação de que os ativos somam um valor de mercado de R$ 11 bilhões, ante nossa projeção de R$ 14 bilhões", escreveram os analistas Pedro Manfredini, Gustavo Miele e Guilherme Soler.
Na quarta-feira, as ações da Eletrobras registraram ganhos expressivos, diante da expectativa de aprovação pela Câmara. Mas, como os destaques ficaram para a próxima semana, as incertezas sobre a realização de um leilão bem-sucedido voltaram a pesar. Os papéis ON e PN da elétrica fecharam o pregão de ontem com queda de 8,6% e 6,15%, respectivamente.